sábado, 28 de novembro de 2009

Papo sério sobre documentos arquivísticos

Em 1986, uma revista do arquivo geral de Buenos Aires publicou artigos abordando a questão da difusão dos arquivos e do conteúdo aí presente para um público novo. Quais as estratégias mais eficientes para fomentar a utilização dos arquivos pelo homem comum é tema de um dos artigos. As contribuições que os arquivos têm a oferecer – e de que forma - para o melhoramento das práticas pedagógicas no contexto de uma educação continuada é analisado por outro. E, finalmente, um terceiro artigo apresenta as ações que têm sido utilizadas por diversos arquivos do mundo para aumentar sua popularidade.
Há vinte e dois anos esses textos foram escritos. Nenhum deles aborda a influência que a tecnologia da informação exerce sobre os arquivos, nem tinham como fazer. Muita coisa mudou nesse período. Em virtude dos avanços em tecnologia da informação chega-se mesmo a falar em uma Segunda Revolução Industrial. O aumento considerável no número de usuários de computadores tem provocado uma modificação grande em demandas por informação. Dados do NARA (National Archives and Record Administration) mostram que o governo dos Estados Unidos tinha aproximadamente 12.600 computadores de média e larga escala em 1980. Em 1990, foi estimado em 25 mil, além de 320 mil computadores pessoais.
Diante desse fato é difícil pensar as atividades de difusão de arquivo atualmente sem abordar os efeitos e possibilidades proporcionadas pelas tecnologias de informação. Seria negligenciar aquilo que é evidente. Essas tecnologias transformam as comunicações em todos os níveis: educacional, comercial, profissional e pessoal. Em artigo disponível no seu Observatório da Sociedade da Informação, por exemplo, a UNESCO (2003) reconhece a importância do livre trânsito de informação e conhecimento para que se realize a paz mundial e alerta para a necessidade de um olhar cauteloso em oposição à euforia provocada pela “alvorada da Sociedade da Informação”:
“Abrangendo uma população algumas vezes maior que a dos países desenvolvidos, os baixos níveis de renda per capita nos países em desenvolvimento refletem-se em alta taxa de analfabetismo jovem e adulto, baixo acesso à educação formal avançada e à tecnologia da informação tanto convencional quanto moderna. Nesse contexto, o papel das tecnologias de informação na construção de uma “sociedade do conhecimento” inovadora poderá ser muito relevante e contribuir para o desenvolvimento sustentado, mas será acompanhado de muitos riscos.”(UNESCO, 2003, p. 2)

Um olhar otimista, entretanto, vê o potencial dessas tecnologias para fomentar o exercício da liberdade de expressão e de imprensa, que dependem e estão ligados à liberdade e ao acesso à informação. A ligação entre esses elementos foi reconhecida pelo Brasil em 1996, na Declaração de Chapultepec que, em seu primeiro artigo, diz não haver “pessoas nem sociedades livres sem liberdade de expressão e de imprensa”, e no seu terceiro artigo acrescenta: “As autoridades devem estar legalmente obrigadas a pôr à disposição dos cidadãos, de forma oportuna e eqüitativa, a informação gerada pelo setor público.” (UNESCO, 2005)

As novas tecnologias da informação podem contribuir para o exercício da liberdade de expressão, pois possibilita às pessoas em geral uma visibilidade antes restrita aos meios formais de comunicação, como televisão e imprensa. Além disso, com a digitalização, muitos documentos podem estar acessíveis on line, em qualquer lugar do mundo, sem que as pessoas precisem sair de suas casas. Essas tecnologias trazem um potencial enorme para incrementar ações difusoras relacionadas aos arquivos. Podem inclusive tornar viáveis ações antes impossíveis por carência de recursos. Uma exposição virtual, por exemplo, ou uma publicação. Isso sem mencionar os inventários disponíveis em qualquer lugar do mundo, os serviços de atendimento à distância, a visualização de documentos na tela do computador. Entretanto, os problemas relativos ao tratamento da informação, ao seu processamento, a sua representação, os recursos necessários para, por exemplo, digitalizar documentos de forma a permitir o acesso, coexistem com os avanços em outros setores. Além disso, há questões relacionadas também às baixas taxas de escolaridade, exclusão digital das camadas mais pobres, entre outras, que impedem uma verdadeira liberdade de informação e de expressão e o pleno exercício da cidadania. Várias questões apresentadas nesses artigos permanecem vivas, em alguns casos até se acirraram, como no caso da exclusão digital. Se no Brasil houve um avanço em relação ao reconhecimento do Estado da necessidade de tratar a documentação produzida pelos seus órgãos públicos, o que demonstra a promulgação da Lei de Arquivos, de 1991, ainda são necessárias muitas estratégias para atrair o público comum aos arquivos, para tornar conhecido do público em geral que tipo de informação está ai disponível.
Os governos produzem informação. E ela deve estar acessível. Cobre!

Saiba mais:
BERCHE, Claire. El uso popular de los archivos. Revista Del Archivo General de La Nación. Buenos Aires: 9, 9, 1986.
JARDIM, José Maria. As novas tecnologias da informação e o futuro dos arquivos. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, p. 251-260.
JARDIM, José Maria; FONSECA, Maria Odila. Estudos de usuários em arquivos: em busca de um estado da arte. DataGramaZero. Revista de Ciência da Informação, v.5, n.5, outubro: 2004.
PAYNE, Hugh W. L. La educacion y los archivos. Revista Del Archivo General de La Nación, Buenos Aires: 9, 9, 1986.
PRÍNCIPE, Lucia S. El hombre comun y los archivos. Revista Del Archivo General de La Nación, Buenos Aires: 9, 9, 1986
UNESCO: Observatório da Sociedade da Informação. Aspectos éticos da sociedade da informação. Artigo publicado em 3 de setembro de 2003. Disponível em: HTTP://osi.unesco.org.br em 03 de outubro de 2008.
UNESCO: Observatório da Sociedade da Informação. Novas tecnologias e a Comunicação democratizando a Informação. Artigo publicado em ........................................ Disponível em: http://osi.unesco.org.br em 03 de outubro de 2008.
NORA, Pierra. Missions et enjeux des archives dans les societés contemporaines. In: Revista Internacional de Archivos. COMMA 2003.2-3 Paris: Conceil International des Archives.

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